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Trajetória internacional, raízes no Brasil: o legado de Adhemar Testa


Trajetória internacional, raízes no Brasil: o legado de Adhemar Testa

Da Força Aérea Argentina à Engenharia Química italiana, Adhemar Testa consolidou sua vida profissional em terras brasileiras. Conheça a sua história.

Por Ana Carolina Coutinho

A trajetória profissional de Adhemar Testa é marcada por movimento geográfico, intelectual e humano. Nascido no interior da Argentina, cresceu em um ambiente familiar profundamente ligado à educação. “Minha infância transcorreu numa cidade do interior da Argentina. Meus pais eram professores”, recorda.

Sua formação inicial ocorreu em escolas públicas e desde cedo ele ampliou seus horizontes por iniciativa própria. Paralelamente aos estudos regulares, dedicou-se ao aprendizado de idiomas. “Fiz a escola elementar e média em escolas públicas e simultaneamente estudei línguas – inglês e francês – em instituições privadas”, conta. Ainda jovem, viveu uma experiência que exigia disciplina e espírito de responsabilidade: em 1966 prestou serviço militar na Força Aérea Argentina. Antes disso, já havia se aproximado da aviação. “Previamente concluí o curso de piloto civil”, relembra.

A escolha pela Engenharia Química viria pouco depois, levando-o à Universidad Nacional del Litoral, em Santa Fé, ainda em sua terra natal. Após a graduação, iniciou sua vida profissional na YPF, estatal de petróleo da Argentina, atuando na área de prospecção. “Trabalhei um ano na YPF, na área de prospecção de petróleo no Nordeste argentino”, conta.

Já no início da carreira, teve uma experiência que ampliaria de forma decisiva sua visão sobre tecnologia e indústria. Em 1972, participou de uma viagem de estudos de cinco meses pela Europa, organizada para formandos de Engenharia Química. “Em março de 1972, fizemos uma viagem de estudos de cinco meses na Europa com apoio do Institute of Directors, da Grã-Bretanha e do DAAD, da Alemanha”, relembra.

Pouco tempo depois, veio uma oportunidade que consolidaria sua formação internacional. “Em agosto de 1972, ganhei uma bolsa de estudos de pós-graduação na Scuola Superiore Enrico Mattei”, relata. A instituição italiana reunia alunos de diferentes nacionalidades e áreas do conhecimento. “A escola contava com 75 alunos, sendo 50 italianos e 25 estrangeiros”, explica. Nesse ambiente multicultural, os estudos ultrapassavam os limites da engenharia tradicional. Economia, gestão e análise de sistemas faziam parte da formação. “Estudamos diversas matérias na área de economia, técnicas e sobretudo análises de sistemas”, afirma. Era também um momento em que a informática começava a entrar nas discussões industriais. “Na época, utilizávamos FORTRAN IV e computadores de grande porte físico”, recorda.

Sua formação híbrida, que combinava engenharia, economia e pensamento sistêmico, acabaria influenciando profundamente sua forma de compreender processos industriais e organizações, marcando toda a sua trajetória profissional.

Muda de país, muda a vida

Em 1977, uma decisão mudaria definitivamente o rumo de sua vida: imigrar para o Brasil. “Decidi vir ao Brasil em busca de novos horizontes”, conta.

Os primeiros meses no país foram na Amercoat, atuando na área comercial de tintas especiais para navios. Pouco tempo depois, ingressaria em uma empresa que marcaria profundamente sua trajetória profissional: a AMCHEM, companhia norte-americana posteriormente adquirida pela Henkel, onde permaneceu por três décadas. “Trabalhei por 30 anos em diversas funções”, resume.

Os primeiros anos no setor ainda eram marcados por limitações técnicas e estruturais. “No início os recursos eram limitados”, recorda. Ao mesmo tempo, foi nesse ambiente que construiu uma das experiências mais ricas de sua carreira: o intercâmbio técnico entre profissionais de diferentes países e setores industriais. “Aprendi muito com colegas brasileiros e de outros países, assim como com o staff das montadoras de automóveis”, afirma, e continua: “Tínhamos grupos globais para aço, autopeças, eletrodomésticos e tratamento de superfícies”, explica.

Hoje pode parecer trivial, mas naquela época as reuniões internacionais eram tecnicamente desafiadoras. “As reuniões se realizavam em telas enormes, em inglês, e com um som que era insuficiente”, lembra, com humor.

Ao longo dos anos na Henkel, Adhemar assumiu posições estratégicas, entre elas na área de gestão do conhecimento e projetos de negócios. Foi nesse contexto que participou da criação de um sistema de acompanhamento e compartilhamento de projetos dentro da companhia. “Com ajuda de especialistas em Lotus Notes [plataforma corporativa usada para organizar e compartilhar informações dentro das empresas]*, criamos um sistema de acompanhamento de negócios de seis gerências relativamente diversas”, conta. O projeto cresceu rapidamente e passou a reunir centenas de iniciativas técnicas e comerciais. “Após o segundo ano tínhamos mais de 900 projetos que a alta direção podia acompanhar em detalhes”, afirma.

O sistema também reunia estudos sobre patentes e análises de experiências práticas da empresa na América do Sul. “Criamos uma base de dados de sucessos e insucessos entrevistando colegas da América do Sul para aprender com eles”, explica.

A importância da ABTS

Entre os momentos que considera mais importantes de sua carreira está a relação construída com a Associação Brasileira de Tratamento de Superfícies (ABTS). Para ele, a entidade teve papel fundamental na circulação de conhecimento técnico no setor. “Creio que o momento mais importante foi a relação estabelecida com a ABTS”, afirma.

Segundo o executivo, a associação permitiu fortalecer o intercâmbio entre profissionais brasileiros e instituições internacionais. “Conseguimos intercambiar conhecimentos com associados e instituições similares de outros países”, lembra.

Depois de sua longa trajetória na Henkel, Adhemar também atuou na MacDermid Enthone, gerenciando clientes-chave em toda a América do Sul. A experiência ampliou sua percepção sobre o desenvolvimento industrial da região. “Em 49 anos de Brasil posso dizer que os avanços técnicos das empresas brasileiras têm sido enormes nas mais diversas áreas”, afirma.

Ao mesmo tempo, destaca que muitas empresas da América do Sul possuem elevado nível técnico. “Nos países da América do Sul onde temos clientes, as empresas grandes têm um know-how técnico bom”, observa.

Nesse processo, a relação com os clientes sempre foi construída como parceria. “MacDermid Enthone tem contribuído muito para esse propósito, com uma assistência técnica premium e considerando os clientes como parceiros”, diz.

Ao ser questionado sobre erros comuns nas empresas do setor, Adhemar prefere evitar respostas simplistas. Para ele, o maior desafio está na forma como as organizações se relacionam. “Não sei se posso apontar três erros”, afirma. Em sua visão, o caminho passa pela escuta e pela construção de relações genuínas. “Todos os profissionais do setor precisam escutar mais e trabalhar a partir de um conceito mais amplo de parceria técnico-comercial”, afirma. Assim, o objetivo final deve ser o crescimento conjunto das empresas envolvidas. “Visando também alavancar os resultados financeiros dos clientes”, acrescenta.

Entre as transformações tecnológicas que mais impactaram o setor nas últimas décadas, ele aponta algo aparentemente simples, mas revolucionário: a comunicação digital. “Eu escolheria o uso combinado da internet e do telefone ‘on the web’”, afirma. Essa evolução encurtou distâncias e acelerou decisões técnicas. “Tem melhorado muito a comunicação entre pessoas e empresas, reduzindo o tempo de resolução de questões técnicas e comerciais”, explica.

49 anos de setor e ainda na ativa

Adhemar Testa

Hoje, Adhemar continua ativo profissionalmente, atuando como consultor da MacDermid Enthone para clientes de língua espanhola na América do Sul. “Basicamente respondo pela área comercial para clientes de língua hispânica”, conta. Quando necessário, recorre ao apoio de colegas especialistas. “Recorro aos meus colegas técnicos quando necessário”.

Morador do bairro Campo Belo, na capital paulista, ele mantém também um olhar curioso para o mundo fora do ambiente profissional. Gosta de conhecer novos lugares, culturas e dedicar tempo a atividades que estimulam a observação e a sensibilidade. “Gosto de conhecer novos lugares, novas culturas, de cinema e fotografia”, diz. Entre suas experiências favoritas está o mergulho, atividade que já o levou a destinos como Abrolhos, no litoral brasileiro, a barreira de corais da Austrália e o Mar Vermelho.

Família de Adhemar Testa
Da esquerda para a direita: Bruno Testa (sobrinho), Rodolfo Testa (irmão), Silvia Linares (cunhada), Adhemar Testa, Pedro Barba (sobrinho-neto), Laura (sobrinha) e Afonso Barba (marido de Laura).
Adhemar Testa com o irmão Rodolfo Testa e a cunhada Silvia Linares
Sr. Adhemar à esquerda, com o irmão Sr. Rodolfo Testa e sua cunhada Silvia Linares.

Ao falar sobre as influências que marcaram sua trajetória, enfatiza que são muitas as pessoas a quem agradecer e cita duas referências importantes em sua formação profissional: Paulo Mizukami, ex-vice-presidente da Henkel, e Airi Zanini, cuja visão sobre relações profissionais deixou forte impressão. “Airi Zanini me influenciou muito com relação ao conceito de família nos negócios”, explica.

“Minha contribuição principal foi estabelecer parcerias profícuas e duradouras com empresas e pessoas em diversos países da América do Sul.”

Ao refletir sobre o legado que gostaria de deixar para o setor, Adhemar não hesita: “Minha contribuição principal foi estabelecer parcerias profícuas e duradouras com empresas e pessoas em diversos países da América do Sul”, afirma. Ele lembra também de ter apresentado no Brasil, em uma palestra na ABTS em 2006, os recobrimentos nanocerâmicos, tecnologia que começava a ganhar espaço na indústria.

Ao olhar para sua trajetória, fica claro que, mais do que tecnologias ou cargos, o que define sua história profissional é a capacidade de conectar pessoas, experiências e conhecimentos de diferentes países e gerações.

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