icone Linkedinicone Facebookicone Instagramicone youtube

Foi Tudo Muito Difícil, Mas Eu Nunca Desisti


TS 247Grandes Profissionais20 de agosto de 2025 | Por: Portal TS
Foi Tudo Muito Difícil, Mas Eu Nunca Desisti

Humildade, persistência e raízes: a história de um homem que construiu muito mais que uma empresa. Conheça a trajetória do Sr. José Maria de Souza, fundador da Galvanoplastia Diadema.

Por Ana Carolina Coutinho.

Logotipo comemorativo de 40 anos da Galvanoplastia Diadema.

Em tempos de urgência e imediatismo, há histórias que nos fazem parar. Histórias como a de José Maria de Souza, que nos lembram da força silenciosa da persistência, da sabedoria que só vem com o tempo e do valor imensurável das raízes.

Aos 75 anos, com fala serena e memória viva, José Maria compartilha sua trajetória sem enfeites ou autopromoções. Seu orgulho não está apenas no que construiu, mas na forma como construiu: com humildade, ética, gratidão e uma fé profunda nos valores que sustentam uma vida inteira.

Nascido no norte de Minas Gerais, José Maria chegou a São Paulo ainda adolescente. “Eu vim de lá menor de idade, tinha 16 anos ainda”, contou. Começou a trabalhar logo que chegou, em uma época em que ser “menor de idade” significava ganhar menos, mas trabalhar o mesmo tanto.

Foram 17 anos como empregado em diferentes empresas, entre elas a Herbert Duttmann e a Planalto Paulista, onde se especializou em processos de cromeação e niquelação. Foi ali que conheceu Ney Augusto da Silva, seu futuro sócio. “Trabalhamos juntos durante 12 anos. Ele era da parte química, eu era do chão de fábrica. Sempre nos demos bem”, conta.

UM SALTO DE FÉ: A DIADEMA NASCE

A virada aconteceu quando José Maria e Ney decidiram comprar uma pequena empresa recém‑fundada, com menos de um ano de vida. “A empresa se chamava Seigema, era uma junção das iniciais dos antigos sócios. Depois, mudamos o nome para Galvanoplastia Diadema Ltda., juntando o ramo com o lugar onde estávamos”.

Mas o início foi difícil – e ele não esconde: “Nos primeiros três anos foi muito difícil, muito difícil mesmo, mas eu nunca desisti. Sempre lutei, sempre batalhei e, graças a Deus, conseguimos ir em frente”. Começaram com apenas dois funcionários. “Um era registrado, o outro era só um ajudante. Os primeiros carros que a gente teve foram para a empresa. Eu não tinha nem carro próprio ainda. A gente só comprou para nós depois de muito tempo”, lembra. O segredo? “Determinação e economia”, diz ele. “Se você tiver essas duas coisas, você chega lá!”, reitera.

A TRANSIÇÃO DE GERAÇÕES

A Diadema cresceu devagar e com consistência. Saiu de um pequeno galpão alugado para mais de 1 200 metros quadrados, somando áreas vizinhas adquiridas com muito esforço. “Tivemos que ir comprando aos poucos. Fui até Araguari, em Minas, para negociar um dos imóveis com uma senhora idosa que estava vendendo. Hoje, a sede é resultado de muito suor e estratégia”, conta.

Desde os primeiros anos da empresa, os filhos de José Maria e também os filhos de seu sócio, Ney Augusto da Silva, passaram a integrar a rotina da fábrica, colaborando em diversas funções e contribuindo com o crescimento do negócio. A presença da família no dia a dia da Diadema reforçava o caráter coletivo e enraizado do empreendimento.

Com o tempo, no entanto, os filhos de Ney decidiram seguir outros caminhos – um na área da saúde, outro na farmácia –, deixando a atuação na empresa. Pouco depois, Ney também manifestou o desejo de se aposentar. “Nunca tivemos desentendimento. Eles só perceberam que aquilo não era o caminho deles”, explica José Maria. A sociedade chegou ao fim de forma serena, e José Maria, junto aos filhos, adquiriu integralmente a parte do sócio, dando início a um novo ciclo na história da Diadema.

Uma das conquistas mais simbólicas dessa nova fase foi a certificação ISO 9000, obtida por iniciativa de Cássio, seu filho. “Eu, no começo, nem acreditava muito nisso. Mas ele insistiu e hoje vejo que foi a coroação de tudo”, conta ele. A conquista representava não apenas um avanço técnico, mas também a maturidade de uma nova geração no comando.

A última grande virada veio com a pandemia da Covid‑19. O distanciamento físico imposto pelas circunstâncias levou José Maria a refletir sobre sua própria atuação. Como sempre fora homem de chão de fábrica – atuando diretamente na produção, nos processos e no contato com clientes –, o impedimento de estar presente gerou um descompasso entre ele e o papel que antes exercia com tanta entrega. “Se eu não posso mais fazer aquilo que sempre fiz, o melhor é confiar e deixar com quem pode.” E assim fez.

Com serenidade, se afastou da gestão do dia a dia, confiando totalmente nos filhos, que já haviam assumido responsabilidades e decisões com segurança. Desde então, ele não frequenta mais a fábrica – nem mesmo por saudade. Prefere manter o espaço livre para que os filhos possam conduzir o legado com autonomia e novas ideias. A empresa segue crescendo, agora sob as mãos de quem viu tudo nascer e aprendeu com o exemplo de quem a construiu – dia após dia. Essa transição, marcada pela confiança e pela simplicidade, é talvez um dos aspectos mais belos da história de José Maria: saber a hora de plantar, de colher e, sobretudo, de entregar.

José Maria entre os filhos, Cássio de Oliveira e Vera Lúcia de Sousa Ferreira

A DOR, A FILOSOFIA E O JAPÃO

Aposentar‑se não significou parar. José Maria passou a se dedicar à filosofia budista que o sustenta espiritualmente e que ele explica ser uma filosofia de vida e não uma religião. Foi por meio dela que ele encontrou sentido e força para seguir em frente, especialmente após as perdas que marcaram sua trajetória pessoal. “Essa filosofia ensina a cultivar as raízes e os antepassados. E isso fez sentido para mim. Perdi minha mãe com quatro meses; meu pai, quando eu tinha sete. Fui criado pelo meu avô. Quando perdi meu filho, de 16 anos, foi essa filosofia que me ajudou a continuar”.

Dentro da prática budista, ele assumiu uma missão: transcrever à mão, com pincel e tinta, os nomes de mil soldados japoneses mortos na guerra como forma de honrá‑los espiritualmente. Era uma tarefa proposta pela organização como um gesto de reverência, disciplina e conexão com a ancestralidade. E ele a cumpriu com total dedicação. “Foram duas partes: primeiro, escrever os nomes em uma folha grande. Depois, a parte mais difícil – copiar tudo em miniatura, dez vezes menor. Mesmo depois de ganhar a viagem, eu fiz, porque queria completar a missão”.

A viagem à qual ele se refere veio como reconhecimento pela tarefa alcançada, quando foi convidado a participar de uma cerimônia no Japão, onde permaneceu por 12 dias. A viagem, no entanto, representou muito mais que um prêmio. “Essa viagem não foi um turismo. Foi uma homenagem, uma entrega. E lá eu senti que tudo valeu a pena. A dor que eu passei, as perdas, tudo aquilo que parecia não ter sentido... naquele momento, teve!”, emociona‑se. Foi no Japão que ele entendeu, de forma ainda mais profunda, o que significa gratidão, reafirmando o seu compromisso com a valorização das origens. “Tudo o que sou, devo às minhas bases. À minha família, ao meu avô, ao trabalho”, destaca.

Viagem ao Japão, em 2023

MESMA DISCIPLINA, OUTROS DESAFIOS

Aos 50 anos, José Maria decidiu realizar um antigo sonho: cursar a faculdade de Direito. Em meio à rotina exigente da fábrica, enfrentou os desafios da graduação com a mesma seriedade com que conduzia a empresa. Formou‑se como bacharel e chegou a prestar a prova da OAB. “Prestei duas vezes a prova, não passei, aí, desanimei”, revela, com a franqueza de quem não tem receio de admitir pausas na caminhada. E foi assim que deixou os livros de lado por mais de 15 anos.

Mas o tempo, paciente com quem não tem pressa, não apagou o desejo de aprender. Com a vida profissional já consolidada, os filhos à frente da empresa, e a mente inquieta de quem nunca se acomodou, ele decidiu recomeçar. “Já faz um ano que estou estudando. Não passei ainda, mas eu estou confiante que este ano eu consigo”. E, agora, prestes a enfrentar novamente o Exame de Ordem, José Maria segue determinado, como sempre foi.

Essa retomada não aconteceu isoladamente. A vivência com a filosofia budista – que exige disciplina, paciência e prática constante – também moldou essa nova fase. A conexão entre a filosofia budista e os estudos de Direito é clara: ambos exigem perseverança, foco e resiliência. “Agora eu vou me preocupar mais com a segunda fase da OAB, porque eu vejo a dificuldade que é pra conseguir”, confessou. A humildade com que encara o processo revela o espírito de quem não teme recomeços – pelo contrário, os acolhe como parte da jornada.

A busca por estudar, mesmo após ter construído uma história de sucesso, revela que o verdadeiro êxito vai além das conquistas materiais – ele também está na coragem de recomeçar, quantas vezes forem necessárias.

Colação de grau em Direito, aos 55 anos

MAIS QUE UMA EMPRESA, UMA EXTENSÃO DA VIDA

Ao ser perguntado sobre o que representa a Diadema em sua vida, José Maria não hesita: “Foi tudo. Apesar de ter trabalhado 17 anos antes da fundação dela, foi ali que construí a base. Tudo que conquistei veio dali”. Hoje, casado há 55 anos com Ana Luiza de Oliveira e Souza, pai, avô, budista, bacharel em Direito e ainda no chão da fábrica de sua própria alma, José Maria segue como exemplo de quem não buscou atalhos; de quem construiu com firmeza, gradualmente, tijolo por tijolo, e passou adiante não apenas uma empresa, mas um legado de valores. “A vida é luta. A gente vai trabalhando, vai batalhando, sem muita ambição, só com o desejo de fazer certo. Foi isso que me trouxe até aqui”, finaliza José Maria de Souza.

Junto à esposa, Ana Luiza de Oliveira Sousa, ao neto, Nícolas

Notícias relacionadas

Este site usa cookies do Google para fornecer serviços e analisar tráfego.Saiba mais.