Eládio Paschoal Varani, Fundador da Electrochemical, foi protagonista da transformação do mercado brasileiro de bijuterias e folheados, escrevendo uma história que se confunde com a do próprio segmento.
Por Wilma Ayako Taira dos Santos
O VENDEDOR
Eládio iniciou sua carreira no setor de tratamentos de superfícies, em 1962, com 19 anos; até então, trabalhava como datilógrafo na antiga Eletroradiobraz, loja que ficava no Brás, bairro da capital paulista. Trabalhava junto com outro grande ícone do setor de tratamentos de superfícies: Carlos Roberto Soarez. Foi ‘Carlão’ que o avisou: “Estão recrutando vendedores em uma empresa, perto daqui, chamada Republic”; e, assim, começaram as brilhantes carreiras do Eládio e do Carlão.

Eládio ainda criança, em seus primeiros anos de vida.
Na Republic, iniciou junto com o ‘Carlão’ para fazer vendas internas; seu chefe, Azis Elias – outro personagem famoso na nossa história –, era dono da Republic, que representava a Udylite no Brasil e, depois, passaria a sócio da Udylite do Brasil – anos depois, incorporada pela Oxy Metal do Brasil.
Eládio comenta que, quando iniciou, as empresas ainda trabalhavam de forma muito rudimentar; os para-choques cromeados, por exemplo, precisavam ser polidos manualmente após o banho de níquel – a Udylite passou a vender aditivos abrilhantadores para esses banhos. Essas empresas pioneiras vieram trazer grande desenvolvimento para o setor de tratamentos de superfícies.
A carreira dos dois amigos se dividiram: o ‘Carlão’ seguiu na Oxy Metal, Henkel e depois para a Tecnorevest. Quarenta anos depois se reencontraram profissionalmente, quando ‘Carlão’ ingressou na Electrochemical Ltda. – empresa de propriedade de Eládio –, onde permaneceu até 2021.

Foto 1 – Na Republic, início de carreira. Da esquerda para a direita, sentado, Eládio é o último.
Em 1968, Eládio iniciou na Bragussa Ltda. – subsidiária da empresa alemã Degussa GMBH. Passou a vender banhos de ouro para um mercado inexistente, mas com grande potencial – na época, o Brasil estava se industrializando e todos os segmentos necessitavam se desenvolver, sobretudo no tratamento de superfície de metais preciosos.
A Degussa foi pioneira em oferecer soluções para recobrimentos dourados em artigos decorativos e indústria eletroeletrônica para circuitos impressos e conectores. A carreira de Eládio na Degussa foi das mais promissoras: ele quem desbravou e ajudou todo o desenvolvimento dos mercados de bijuterias, fivelas, adornos, armações de óculos e pulseiras de relógios; além de ser protagonista na transição da produção de joias de ouro para os atuais ‘folheados’.
A Degussa foi uma escola para dezenas de profissionais no mercado brasileiro. Tinha uma estrutura sólida que refletia a cultura alemã; participou de todas as edições do EBRATS; convidava frequentemente pesquisadores do Instituto da Alemanha para apresentar palestras tecnológicas relativas aos banhos de ouro; e dava, aos colaboradores, treinamento contínuo e a atualização de todos os avanços e tendências que estavam acontecendo nos mercados europeu e norte-americano. Foi essa cultura que deu o norte do que viria a ser um nicho de mercado muito peculiar e distinto de todos os outros segmentos dos tratamentos de superfícies.

Foto 2 – Um dos inúmeros seminários promovidos pela Degussa.

Foto 3 – Participação em todos os EBRATS.

Foto 4 – Da esq. para a dir.: Eládio Paschoal Varani; Ismael Paulo Grasefe e Paulo de Oliveira, no EBRATS de 1989.
A HISTÓRIA DAS BIJUTERIAS E FOLHEADOS SE CONFUNDE COM A DO PROFISSIONAL ELÁDIO
A cidade de Limeira (SP) foi denominada ‘A Capital Nacional da Joia Folheada’, em 10 de janeiro de 2018, pela Lei 13.610/2018, como reconhecimento de um polo industrial onde se concentra a metade de toda a produção nacional (segundo o livro: Limeira – A Capital Nacional da Joia Folheada, publicado em 2021). A cidade começou a se desenvolver no mercado decorativo a partir da década de 1970 e, hoje, é onde se encontra toda a cadeia produtiva de bijuterias, desde peças brutas, serviços de criação, solda, montagem e prestação de serviços de banhos.
Foi nessa cidade que o Eládio concentrou muitos esforços de desenvolvimento do mercado. Como vendedor, nas décadas de 1960 e 1970, trouxe para a Degussa as necessidades dos empresários. Na verdade, nem eles sabiam ao certo o que estavam para desenvolver. Tudo surgiu da necessidade de a indústria de joias buscar produzir ‘ouro baixo’, ou seja, uma liga com menor teor de ouro. A questão é que a cor dessa liga não era comercial, então precisavam de um banho de ouro com cobertura na cor do ouro 18K.
Ao mesmo tempo, essa necessidade se estendeu para os chamados ‘chapeados mecânicos’, onde, novamente, com o objetivo de baixar os preços das joias de ouro, usava-se uma fina chapa de ouro 18K e a conformava sobre uma base de cobre. No entanto, esse material também necessitava de um banho de ouro que cobrisse as extremidades e as junções das soldas em um acabamento uniforme.
Eládio, já vendedor de muita competência, procurou, junto ao seus pares, o apoio técnico para desenvolver esse mercado que parecia muito promissor. Seus pares, Sidnei Cestari, gerente comercial, e Ismael Paulo Graseffe – na época, responsável técnico pelo departamento de galvanoplastia – buscaram, junto com o departamento técnico da Alemanha, o desenvolvimento de banhos de folheação de ouro 18K que pudessem aplicar camadas de ouro com espessuras maiores sem comprometer o brilho.

Foto 5 – Livro conta a história da joia folheada de Limeira; lançado em 2022, após a cidade ter recebido a outorga de Capital Nacional da Joia Folheada em 2018.

Foto 6 – Da esq. para dir.: Ismael; Eládio, já como gerente comercial da Degussa; Edivani; Moacir; Wilma; Rubens; Paulo e Wladimir e equipe do GT.
Naquela mesma época, havia necessidade de se atuar também na área técnica-funcional, onde as indústrias de componentes eletroeletrônicos e de circuitos impressos estavam ‘bombando’; Eládio atuava nos dois segmentos de mercado, em todo o território brasileiro, onde outros polos também se desenvolviam – como Guaporé (RS) e Juazeiro (CE).
O grande trunfo no mercado decorativo foi quando se vislumbrou a possibilidade de produzir ‘joias’ a partir de ligas não nobres – como o latão – e aplicar camadas de ouro.
A galvanoplastia decorativa para o mercado de bijuterias e folheados estava iniciando; eram as décadas de 1980 e 1990, e Eládio foi um dos grandes protagonistas que tiveram a ousadia de ouvir e buscar atender as necessidades dos produtores, na maioria, joalheiros e ourives de pequeno porte e poucos produtores de joias e acessórios de pulseiras de relógios. Esta revolução do setor transformou o mercado, pois, até então, a maioria do público consumidor não tinha acesso às joias de ouro e passaram a poder usar produtos com aparência de ouro, mas sem dispender o custo desse ativo tão caro. E, assim, hoje, a grande massa da população tem acesso a adornos tão bonitos e sofisticados que antes era privilégio das classes mais abastadas.
Atualmente, o mercado possui uma gama imensa de produtos banhados que iniciam com acabamentos dourados que nem sempre são ouro – podem ser verniz cataforético dourado ou metais na cor dourada –, e seus preços podem se ajustar a qualquer classe social, da A até a E, ou seja, o mercado atende a todos os perfis e bolsos graças à evolução dos processos de tratamentos de superfície e à atuação de profissionais como o Eládio.
O EMPRESÁRIO

Foto 7 – Nova sede da Electrochemical, inaugurada em 2000.

Foto 8 – Recebendo a visita da comitiva da Degussa Brasil e Alemanha. Da esq. para a dir.: Ismael; Antonio Carlos; Dr. Simon; Edson; Mr. Kaiser; Dr. Gerner; Eládio; Paulo e Wilma.
Eládio permaneceu na Degussa até 1990, quando, devido ao grande avanço do mercado decorativo e à característica das empresas, foi proposto que ele abrisse uma empresa para distribuição de produtos da Degussa, sobretudo para atender o grande mercado decorativo pulverizado em centenas de companhias familiares e informais, mercado que uma empresa de porte multinacional não conseguia atuar.
Assim, iniciou sua carreira de empresário com a abertura da Electrochemical Ltda. Em poucos anos, viu que o mercado precisava muito mais do que distribuição de aditivos de banhos de ouro. Dessa forma, a empresa buscou parcerias e produtos no Brasil e no exterior. Foram realmente ‘Anos Dourados’ para Eládio e para a Electrochemical. Ele ainda assumiu a filial da Degussa em Guaporé (RS) e abriu filiais em Limeira (SP), Juazeiro de Norte (CE), Argentina e Colômbia, de onde também atendia o Peru.
Com espírito de incansável empreendedor, sempre buscou testar outros segmentos de mercado – como a estamparia, na área têxtil, luminárias, acessórios para bijuterias, processos para zincagem –, muitas vezes, por puro ímpeto, sem um estudo aprofundado do mercado; alguns foram bem-sucedidos, outros, nem tanto…
Talvez o seu maior desapontamento na vida tenha sido não ter feito um sucessor na empresa. Em função da chegada da idade, foi se desvencilhando das empresas e, em 2022, aos 80 anos, vendeu a matriz Electrochemical e se retirou do mercado como empresário; mas ainda mantém contato permanente com colegas e clientes – que se tornaram amigos – e também o espírito alegre e descontraído de vendedor que nunca o abandonou.
A FAMÍLIA

Foto 9 – Eládio, de polo vermelha, com sua família.

Foto 10 – Reunião com amigos e sua ex-esposa, Maria.

Foto 11 – Eládio e a atual esposa, Debora.
Desde criança, sempre foi independente, alegre e comunicativo; sua mãe dizia que ele ajudava em casa desde os 12 anos de idade, recolhia materiais reciclados quando nem se falava em meio ambiente. Cuidava dos jardins da vizinhança para ganhar alguns trocados. A vida difícil do início o fez ter muita garra.
Por influência do tio Don José Varani, bispo da cidade de Jaboticabal (SP), com quem conviveu por um período, ingressou no seminário de Aparecida do Norte (SP), onde estudou por dois anos, mas seu destino de padre foi abandonado por não sentir a vocação.
Aos 20 anos, se casou com Maria e juntos formaram uma família com cinco filhos, doze netos e três bisnetos. Mesmo após o divórcio, cuidou dela até a sua morte, em 2015. Maria teve um AVC (acidente vascular cerebral) em 2007, perdeu lucidez e acreditava continuar casada com ele; Eládio não desfez essa crença, a visitava sempre que podia, cuidava dela, provia todas as suas necessidades e simulou uma festa de ‘Bodas de Ouro’. Para ela, ele continuava seu marido.
Hoje, casado há mais de 18 anos com a Débora, desfruta de uma vida tranquila e sem grandes preocupações.
O LEGADO

Foto 12 – Pescaria anual com amigo Sidnei (à esq.).

Foto 13 – Eládio, no centro, em pé de camisa branca, na Caminhada de Santiago de Compostela.
Nestes mais de 60 anos atuando no mercado, acompanhou toda a evolução dos banhos e das empresas, fez muitos amigos verdadeiros e ainda hoje encontra seus antigos clientes e amigos conquistados ao longo dessa trajetória. Sua característica principal é o bom humor e a alegria. Está sempre fazendo piadas, até mesmo de seus problemas, às vezes de forma sarcástica, mas sempre divertido.
No mercado decorativo, Eládio foi protagonista de todas as transformações e evoluções vivenciadas pela indústria. Desde quando surgiram os primeiros banhos, que só davam tonalidade dourada, até os dias atuais, onde se consegue depositar camadas espessas com qualidade, teor e diferentes tonalidades; empresas do setor de tratamentos de superfícies trouxeram uma grande evolução para a indústria decorativa brasileira, fazendo o Brasil ser atualmente reconhecido no exterior como o país que produz ‘a joia folheada’.
Hoje, aos 83 anos, está afastado do mercado, mas não dos amigos que fez; em seus momentos de lazer, sempre gostou de pescar e foi algumas vezes ao Caminho de Compostela acompanhado dos amigos inseparáveis: Sidnei Cestari, Ronald e José Antônio Neto (in memorian).